Cheguei há poucos minutos. Estava na casa de um parente e, agora, tenho um olhar para dentro de mim.
Vou explicar melhor: é que tenho o meu netbook ligado, o processador de texto do Microsoft Works aberto... Estou deitado em minha cama, condição perfeita para escrever algo. E eu realmente sinto que tenho que escrever alguma coisa.
O meu olhar, então, se volta para dentro de mim, espreitando por cada compartimento de mim mesmo. E eu a perguntar-me sobre as coisas que vi, ouvi, pensei... Um questionar crítico pulsa vigorosamente. Deve haver algo de interessante no hoje, algo que mereça esta página!
Resolvo pôr a mão na massa, e começo a escrever, mesmo sem ter alguma noção sobre o que vai sair. Quanto mais eu penso sobre o que vou escrever, sinto que o meu pensamento vai se voltando sobre si mesmo, caracterizando o que chamo de metapensamento.
Ocorre-me que pensar, entre outras coisa, é o que nos distingue dos demais seres vivos. É, portanto, algo nobre. Pensar se aprende. É uma faculdade que pode e deve ser desenvolvida. Há, pergunto, outra maneira de aprimorar o pensamento que não passe pelo metapensamento? Imagino que não.
Infelizmente, o dia a dia, as ocupações e preocupações tiram-nos a nossa sede de reflexão.
Alguém poderia facilmente, sem usar o intelecto, claro! e justificando a sua preguiça mental, dizer-me que, “de pensar, morreu um burro” (...). Mas... por que se diz isto a um ser humano, na nossa cultura? E não a um burro? Um burro, dirá alguém, não entende a linguagem humana. E eu acrescento: tampouco pensa, como pensa um ser humano, embora há quem diga que eles (os burros) são muito inteligentes... O que é questionável, pois, se são burros, como podem ser inteligentes?
O enunciado em questão (acrescento que há a possibilidade de interpretar a palavra “burro” como um adjetivo, e não como o substantivo que dá nome a um animal) explora o que se convencionou chamar de raciocínio lógico. A expectativa (ainda que predominantemente inconsciente: é comum as pessoas repetirem frases -- simplesmente porque já as viram sendo usadas em tal situação -- sem pensar no significado que elas carregam...) de quem o emite é a de que o interlocutor pense da seguinte forma: se um burro morreu de tanto pensar, pode ser que eu, que estou a pensar, também morra. Não percebe tal pessoa que, ao pensar dessa forma, se equipara, como se o fosse, ao próprio burro. Alguém dirá sarcasticamente que, nesse caso, a equiparação é justa. (...)
Há, não posso negar, no entanto, pessoas que usam o referido enunciado de forma humorística, reconhecendo os sentidos subjacentes que se escondem em sua bagagem. Neste caso, o uso é saudável, isto se o interlocutor for capaz de acompanhar o (s) raciocínio (s) evocado (s). Caso contrário, pode ser que este se sinta desestimulado do exercício diário do pensar profundo, que tão bem faz à saúde de todos nós. Há mensagens ocultas que, mesmo não sendo compreendidas pelo intelecto, se alojam no subconsciente e influenciam a vida das pessoas.
Para terminar com um raciocínio lógico: se há enunciados ocultos que influenciam o comportamento humano, e eu, humano, não quero ser escravizado por eles, então devo, diariamente, praticar o pensar profundo, pois é através dele que penetramos além da superfície. E que, especialmente na arte de pensar, todos sejamos prósperos! E possamos caminhar seguros nos caminhos do 2010, que já está diante de nós! Feliz pensar!

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